O Esqueleto da Indústria Cidadã: o galpão abandonado que desmente o discurso oficial de desenvolvimento na Bahia

Em Itapetinga, o que deveria ser um polo pulsante de inovação, geração de renda e dignidade virou um retrato constrangedor do abandono estatal. A chamada Indústria Cidadã, concebida em 2009 como símbolo de economia criativa e inclusão produtiva, hoje mais se parece com um cemitério industrial a céu aberto. Um espaço fantasmal, onde o silêncio substituiu o barulho das máquinas e o mato tomou o lugar da produção.

A cenografia do abandono

As imagens falam por si e gritam.

Do lado de fora, o cenário é de degradação explícita: janelas fechadas improvisadas com pedaços de madeira, estruturas quebradas e vegetação tomando conta do entorno. O que deveria ser um equipamento público funcional tornou-se abrigo improvisado e território de risco.

Dentro do galpão, a cena é ainda mais perturbadora. Máquinas de costura paradas, cobertas por poeira e abandono. Caixas empilhadas de forma desordenada, tecidos jogados, mobiliário deteriorado. Fios elétricos pendurados de maneira perigosa, iluminação precária e sinais claros de insalubridade. Não há organização, não há segurança, não há atividade econômica, há apenas o resquício do que um dia tentou existir.

Relatos colhidos no entorno reforçam o quadro:

“É de dar dó. Isso aqui já deu trabalho pra muita gente. Hoje é só desperdício de dinheiro público”, diz um comerciante local.
“Ninguém aparece aqui há anos. Só mato, bicho e abandono”, afirma um morador.

A situação é agravada pela completa ausência de segurança: portas escoradas, ausência de vidros, cercas comprometidas. Há indícios claros de invasões e furtos. O local também se tornou abrigo para usuários de drogas e moradores em situação de rua e, segundo relatos, um verdadeiro criadouro de animais peçonhentos: cobras venenosas, escorpiões etc., já foram vistos no local.

Como se não bastasse, nesta semana, o espaço amanheceu com um vazamento de água que escorre livremente para a via pública, um símbolo quase didático do desperdício que define o lugar.

O protagonista do descaso

No centro dessa negligência está a Secretaria de Desenvolvimento Econômico da Bahia, comandada pelo deputado estadual licenciado Ângelo Almeida. O secretário, que deveria ser o guardião de políticas públicas voltadas à geração de emprego e renda, parece ter optado pelo silêncio e pela ausência.

Quantas vezes Ângelo Almeida visitou a Indústria Cidadã nos últimos anos? A resposta, segundo moradores e trabalhadores locais, é simples: nenhuma. Ou, no máximo, aparece em anos eleitorais, quando a cidade volta ao radar político.

Enquanto o secretário anuncia cifras robustas em “parcerias estratégicas” e eventos de vitrine, a realidade concreta deste equipamento público é de penúria absoluta. Não há registro de investimentos recentes em manutenção. Na prática, o orçamento destinado ao espaço parece inexistente ou tão irrisório que se tornou invisível.

E aqui a contradição salta aos olhos: propostas para reaproveitamento do espaço já foram feitas. O Departamento de Cultura de Itapetinga solicitou a cessão do galpão para transformá-lo em um centro cultural e de economia criativa. A Secretaria de Educação também demonstrou interesse em utilizar o espaço para fins educacionais.

Resultado? Silêncio.

A omissão, neste caso, não é apenas administrativa. É política.

A ironia cruel do nome

“Indústria Cidadã”.

O nome carrega uma promessa: produção, movimento, oportunidade. Um equipamento voltado à inclusão produtiva, ao fortalecimento de pequenos produtores, à geração de renda.

Hoje, não há indústria. Não há cidadania.

O espaço que deveria fomentar cadeias produtivas se tornou um símbolo de improdutividade estatal. Um monumento ao desperdício de potencial humano e econômico.

Cada máquina parada ali representa uma oportunidade perdida. Cada metro quadrado tomado pelo mato é um lembrete de empregos que deixaram de existir. Cada caixa abandonada é um capítulo de uma política pública que fracassou, não por falta de ideia, mas por ausência de gestão.

O silêncio oficial

A reportagem procurou a Secretaria Estadual de Desenvolvimento Econômico e o gabinete do secretário Ângelo Almeida para comentar o estado de abandono do equipamento. Até a publicação deste texto, não houve retorno. Em nota, a assessoria limitou-se a dizer que “o caso está sendo avaliado pela equipe técnica e aguardando uma licitação para efetuar os reparos”, uma frase vazia que se repete há anos, servindo apenas como cortina de fumaça para a inação.

O abandono da Indústria Cidadã de Itapetinga não é um acidente administrativo. É uma escolha.

Uma escolha que revela um modelo de gestão que prefere investir em anúncios a investir em pessoas. Que privilegia a vitrine em detrimento da base. Que trata o desenvolvimento econômico como discurso e não como prática.

Enquanto os holofotes iluminam projetos de fachada, a Indústria Cidadã apodrece em silêncio, expondo a face mais incômoda do poder público: a de quem abandona o patrimônio coletivo e, junto com ele, a dignidade de quem mais precisa.

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