
Há datas que não cabem no calendário. Elas cabem na memória. O Dia de Reis é assim. Chega de mansinho, no compasso da viola, no som do pandeiro, na cantoria que atravessa a noite e acorda lembranças adormecidas. É 6 de janeiro, mas poderia ser qualquer dia em que a tradição resolve bater à porta.
A origem vem de longe, dos Reis que seguiram a estrela até Belém, guiados pela fé, pela esperança e pelo mistério. A tradição popular consagrou três, talvez pelos presentes, talvez pela poesia da narrativa, embora a própria Bíblia não fixe número, apenas os mencione como Reis. No Brasil, essa história atravessou o oceano, ganhou sotaque, ganhou chão, ganhou povo. Virou Folia, virou Terno, virou promessa cumprida, mesa farta, porta aberta e respeito ao sagrado e ao coletivo.
Quem já viu sabe: não é só música. É entrega. Os integrantes do Terno de Reis carregam mais do que instrumentos – carregam responsabilidade. Cada canto é ensaiado com devoção, cada verso é guardado como herança. Muitos aprenderam com os pais, com os avós, com gente que já se foi, mas que continua viva em cada ladainha entoada. Caminham quilômetros, enfrentam chuva, cansaço, o tempo e o esquecimento, apenas para manter acesa uma chama que insiste em não se apagar.
Há uma nostalgia bonita nisso tudo. Lembra infância, lembra interior, lembra quando a vida parecia mais simples e a rua era extensão da casa. Quando a chegada do Reisado era acontecimento, e o silêncio respeitoso da escuta valia mais do que qualquer pressa moderna.
Mas tradição não vive só de saudade; vive de cuidado. E é exatamente aí que entra a missão da Cultura: resgatar, valorizar e proteger manifestações como o Dia de Reis, entendendo que cultura não é passado engessado, é identidade viva. É compromisso com quem veio antes e responsabilidade com quem vem depois.
Por isso, é justo reconhecer e parabenizar todos que se dedicam a manter essa tradição de pé: mestres, foliões, músicos, pesquisadores, comunicadores, apoiadores e cada pessoa que abre a porta, oferece um café, uma escuta atenta ou um aplauso sincero. Cada gesto conta. Cada apoio fortalece.
Que a estrela continue passando por nossas ruas. E que a Bahia e o Nordeste sigam sabendo olhar para ela com respeito, sensibilidade e amor pela sua própria história.
_Marco Correia_
Advogado e pós-graduado em Ciências Políticas, Sociologia e História Geral.
Instagram:
marcocorreia.oficial